Voltar para  Home
 
 
584.319
Midia ImpressaTelevisãoInternetOutras Notícias
 
18/05/14
  Fiquei Desesperada
 


Esse foi o primeiro sentimento da psicanalista Edith Modesto quando descobriu que o filho era homossexual. O aprendizado nesse novo universo fez dela umaespecialista no assunto

A primeira coisa que se aprende depois de uma conversa com Edith Modesto é que pais e mães de homossexuais nunca estão sozinhos. Ela dá a dimensão exata de como aflição, desespero, pânico e muita frustração podem ser sentimentos comuns - e perfeitamente admissíveis - naquele momento da vida em que o filho revela sua condição de homossexual. Experiência não falta para lidar com esses pais de primeira viagem, porque ela mesma, há 22 anos, enfrentou os mesmos medos quando o sétimo filho, Marcello, resolveu contarà família que era homossexual.

O medo do desconhecido fez essa psicanalista e professora universitária, mestre e doutora em Semiótica, correr contra o tempo para entender tudo sobre esse universo. Escreveu cinco livros sobre o tema e fundou uma ONG,
o Grupo de Pais de Homossexuais (www.gph.org.br). Nesse fórum virtual, mantém contato com pais, mães e jovens de todo o País, esclarecendo suas dúvidas e dividindo com eles a própria experiência.

EXPERIÊNCIA A pessoa nasce homossexual?

Não vou afirmar que nasce homossexual. Cientificamente, nós não sabemos ainda como uma pessoa é homossexual, da mesma maneira como não sabemos o motivo que faz com que uma pessoa seja heterossexual. Então, não posso afirmar nada. Existem estudos genéticos, que estão bem adiantados no mundo, sobre o cérebro, sobre os genes. Há, inclusive, um
estudo muito sério sobre gêmeos univitelinos, que apontam que, quando um é homossexual, há mais de 70% de chance de o outro também ser. Só que nem isso foi uma prova suficiente, do ponto de vista científico, para garantir que a homossexualidade é uma questão genética.

Sua história pessoal deve ser a de muitos pais que descobrem, na adolescência do filho, que ele é homossexual. Qual foi o primeiro sentimento que essa descoberta trouxe?

Eu simplesmente fiquei apavorada, porque naquela época não se falava abertamente sobre isso. Já era uma professora universitária, mas não sabia nada sobre o assunto. Sabia que os homossexuais existiam, mas nunca tinha pensado na questão.
Era algo muito longe de mim.

E o que disse para ele nesse momento?

Eu fiquei embasbacada, desesperada. Fiz um livro para conseguir aceitar o meu filho. Fiquei escrevendo por três anos o Vidas em Arco-Íris. Entrevistei
89 homossexuais, homens e mulheres, de 14 a 62 anos.

Escrevi esse livro para mim. E por quê? Porque eu pensei assim: já que meu filhoé homossexual, eu quero saber quem são essas pessoas. Na época, não tinha essa consciência, mas hoje, olhando para o passado, vejo que escrevi esse livro para me ajudar a aceitar o meu filho.

E ajudou?

Muito! Porque eu fiquei conhecendo esse universo. Eu já era professora universitária nessa época, de certo dava aula para muitos homossexuais,
mas agora vejo que não sabia nada sobre eles. O livro foi o início de tudo, inclusive do grupo de pais que eu criei. Porque eu queria muito falar com outros pais sobre isso. Eu tinha a ideia de que, conversando com uma mãe
como eu, me sentiria melhor. Mas cadê a mãe? Não achava. Aí descobri um fórum na internet só de homossexuais e passei a acompanhar. Não falava nada, só lia o que eles estavam dizendo. Depois de vários meses foi que me
apresentei e todos foram muito simpáticos. Comecei a aprender com eles. Aí tive a ideia do grupo e as mães desses rapazes foram as primeiras a fazer parte. Hoje, elas são minhas amigas e ainda estão no grupo.

Entre o impacto de receber a notícia e efetivamente aceitar os fatos dentro de você, quanto tempose passou?

O processo de aceitação é muito lento, e é mais lento para algumas mães do que para outras. E esse tempo não tem nada a ver com a cultura da mãe, o nível socioeconômico, o amor que tem pelo filho, nada disso. Não tem regra. Eu conheço mães muito cultas, muito preparadas, que têm uma enorme dificuldade em aceitar o filho homossexual. Então, vai da pessoa, da forma como foi criada, dos valores que recebeu.

ACEITAÇÃO Se a mãe ou o pai, no seu íntimo, ainda não aceitou, como
ajudar esse filho a enfrentar as dificuldades que terá pela frente?

Antes de mais nada, a ajuda começa quando você diz para ele que o ama e que está se esforçando. Aliás, o mais correto na relação com o filho homossexual não é esconder os seus próprios sentimentos, nem fingir que está tudo bem, quando na verdade não está. Não esconda as suas dificuldades. Você só terá aceitado completamente quando falar sobre o assunto com a maior naturalidade. E eu não estou falando de levantar bandeiras, nada disso, mas de falar sobre o assunto como fala de qualquer outro. Levantar bandeira pode transparecer um preconceito ao contrário.

Como assim?

Em vez de esconder, você passa a ser uma pessoa agressiva. É preciso ter cuidado com isso. Também tem uma outra situação: você passar a enaltecer demais o filho: “O meu filho é maravilhoso”, “Os homossexuais são pessoas
ótimas”. Nada disso! Eles são pessoas como quaisquer outras. O meu filho gay é muito próximo de mim, porque atuamos em áreas similares, somos professores. Então, trocamos muitas ideias. Mas jamais vou dizer que é o meu
melhor filho. Não! Ele tem defeitos como todos os outros. Então, quando você passa a enxergar seu filho gay como pessoa, como qualquer outra pessoa, com virtudes e defeitos, é porque você está realmente bem. Dizer que o filho gay é o melhor do mundo,é especial, isso é um recurso de defesa, e você, no fundo, ainda não aceitou a condição dele.

Então, o melhor caminho é ser autênticocomo filho, dizer a ele que
está se esforçando para entender e assimilar essa nova realidade?

Isso mesmo. Ser honesto com ele, falar: “Olha, eu te amo, mas tenho um preconceito internalizado”. Todo mundo tem. Eles também. Eles têm um processo de autoaceitação muito difícil. Então, é bom lembrá-los disso também: “Lembra, filho, quando você se sentiu diferente dos seus amigos, aquele estranhamento?” O jovem não quer ser diferente da turma. Ele quer se enturmar, porque precisa do apoio do grupo para cortar o cordão umbilical.

Mascomoa mãe, que tambémestá fragilizada coma notícia, pode ajudar o filho nesse processo?

A mãe pode pedir a ajuda do filho. No grupo, muitas vezes eu digo isso a eles: ajudem seus pais. Essa relação tem que ser assim bem verdadeira. Diga ao filho que está com dificuldade, que o ama e vai superar isso, mas que ainda não conseguiu lidar completamente com a nova situação. Peça paciência ao
filho. Esse é o melhor caminho, porque é construído de forma conjunta. Mãe não é uma deusa do Olimpo, não é a Mulher Maravilha. A sociedade constrói uma imagem de mãe que manipula as mulheres. Mãe tem qualidades e defeitos como qualquer pessoa. Esse negócio de amor incondicional não existe. Alguns conceitos sobre a mãe são muito perversos: mãe sempre sabe, mãe tem intuição de tudo, praga de mãe pega. Tudo é construído para que a mãe seja uma mulher extraordinária, e não é! Ela é uma pessoa comum. Agora, que o amor de mãeé importantíssimo, tanto para a mulher quanto para o filho, isso eu não discuto. Eu penso que esse é um dos amores que existem no mundo de maior valor, isso sim. A pessoa que não tem o amor, o acolhimento da mãe, fica com uma cicatriz na alma. Pode até vencer, mas é mais difícil.

Há situações de famílias com filhos homossexuais em que os pais não só não aceitam essa condição como passam a perseguir e hostilizar o filho.Querem saber a todo tempo onde ele está,com quem está, o que está fazendo etc. Ao longo do tempo, quais prejuízos você vê nessa relação?

Olha, primeiro, deixa eu falar uma coisa: como eu disse, mãe é uma mulher, que ama o filho, sim, mas que se ama também. Ela constrói sonhos, baseados naquilo que aprendeu: o que é melhor para o filho dela, e o que é melhor para ela mesma, o que vai lhe dar mais orgulho e o que vai fazer o filho mais feliz. De repente, os sonhos caem por terra, tudo aquilo que ela pensou não vai mais acontecer. Ela fica muito desesperada, porque não vê saída. É como se olhasse para uma parede de espelhos e só visse o seu próprio rosto refletido lá. No meu grupo, quando os filhos chegam tristes, desamparados, desamados, decepcionados com a mãe, digo: “Você tem que mostrar para ela que está assim, que está muito triste”. Às vezes, eles aparecem até com a ideia de morte, passam a não mais sair de casa, só querem dormir, ficam muito agressivos também ou passam a ser muito introspectivos e calados.
Eu sempre digo: “Mostre isso à sua mãe, fale para ela que não está bem, diga que você a ama, mas está em perigo. Se ela perceber o risco, vai parar de olhar para ela mesma e vai começar a olhar para você. Porque mãe nenhuma quer perder o filho”. Eu uso desse recurso porque há duas situações possíveis e muito ruins: ou eles se calam, ou fingem que está tudo bem quando não está. Isso é um erro. A melhor estratégia para o filho é mostrar à mãe que está péssimo. Toda mãe adora se sentir amada e necessária.

Quando você fala em mãe,também está se referindo ao pai?

Não, eu falo só em mãe, porque com o pai a coisa é um pouco diferente. O homem foi criado para ser racional. Ele esconde os sentimentos, tem vergonha
de se expor. No meu grupo virtual, há pais também, mas eles só leem, não escrevem nada. O homem não gosta de conversar sobre relações. E eu não estou dizendo que ele não ama o filho, ele ama muito, mas a maneira de lidar com o paié um pouco diferente. No grupo, a gente quase sempre começa pela
mãe, porque os jovens, em geral, têm muita dificuldade de lidar com ela quando se descobrem.

E o que você diz a eles nesse primeiro momento?

A regra básica é: mostre para a sua mãe que você a ama. Se conseguir, diga a ela que a ama. Eu digo se conseguir porque é muito difícil, para o filho, sentir-se rejeitado pela mãe. Quando ele se sente assim, fica constrangido de falar em amor, até porque ele está com raiva dela. “Como é que minha mãe não me aceita? Eu sou filho dela!” Eles ainda têm na cabeça a história do amor incondicional. Aí eu preciso contar para eles que a mãe, na verdade, é uma mulher como outra qualquer. Eles me mandam e-mails de três, quatro páginas contando tudo sobre a mãe e pedindo que eu fale com ela. Eles escrevem tudo sobre ela, mas esquecem de dar o nome. E por quê? Porque mãe não tem nome, mãe é mãe, na cabeça deles.

CICATRIZ Mas retomando a questão anterior: se você, além de não aceitar o filho homossexual, passa a persegui-lo e hostilizá-lo, rejeitá-lo severamente, o que acontece com essa relação ao longo do tempo?

O prejuízo é enorme. Esse jovem vai crescer mais rápido. Imagine a seguinte situação: a criança negra, quando é xingada na escola com palavras ofensivas, ela vai para casa chorando e pede o colo da mãe. Mas, se é um gay e a família não o aceita, é melhor chorar na cama porque não adianta esperar colo de ninguém. Então, esse jovem morre ou vence: ou cresce rápido, amadurece e vai para a vida, ou entra em depressão, fica agressivo, vai para a marginalidade, para as drogas. Por que muitos gays vão para a marginalidade e para as drogas? Porque não aguentam essa falta de apoio dos pais. Os que vencem, apesar da falta de apoio em casa, até poderão ter uma vida normal, serão felizes, mas a cicatriz na alma já ficou.

Nas entrevistas que você fez para o seu primeiro livro,com homossexuais de 14 a 62 anos, que tipo de sentimento predomina no coração deles?

Os mesmos de outras pessoas. Eles querem ser felizes, amados, aceitos pelos pais, pela família, querem que os pais tenham orgulho deles. E tudo que não acontece traz sofrimento. Então, a mágoa é não serem como os pais queriam que eles fossem. Eles têm que trabalhar muito isso. E eles mesmos têm dificuldades para se aceitar, porque o preconceito é internalizado neles. Muitos foram ser padres, porque a dificuldade de se aceitar era tão grande, que achavam que Deus podia ajudar a não serem homossexuais. Claro que depois
saíram do seminário, perceberam que não era nada disso.

Muitas pessoas têm a impressão de que hoje há mais homossexuais do que há 15, 20 anos. Isso é só uma impressão?

O que aumentou foi o número de homossexuais assumidos, que se mostram na sociedade, que se aceitam, e que, como o povo fala, saíram do armário. O número sempre foi o mesmo. A sociedade aceitar ou não aceitar não vai fazer aumentar a quantidade de gays. A aceitação por parte da sociedade vai fazer as pessoas mais felizes, podendo ser elas mesmas.

Então, o fato de elas estarem tendo coragem de se mostrar mais significa que a sociedade avançou?

Exatamente. A sociedade está fazendo com que as pessoas sejam mais felizes. Está respeitando mais as diferenças e permitindo que as minorias possam buscar a felicidade também, de modo geral. E, de modo particular, os LGBTs. Falar no “T” ainda é um pouco complicado, porque as pessoas nem sabem direito o que é um transexual. Mas, em relação aos homossexuais, eu não tenho dúvida de que a sociedade já está permitindo, sim, que eles busquem seus espaços e sejam felizes como qualquer outra pessoa. Mas ainda há muros a derrubar.

Muros?

Sim, eu digo que nessa questão da homossexualidade há três muros: o social, que está caindo, o escolar, que só tem algumas trincas...

Por que só algumas trincas?

Porque tem ainda muita coisa para se fazer. A escola ainda não sabe como lidar com a homossexualidade. Mas até dápara entender, porque está muito ligada à família, à casa, então fica difícil. Como avançar se a casa segura? Não adianta você fazer uma campanha dentro da escola para entendimento, respeito e aceitação das diferenças sexuais se a criança chega em casa, a mãe vê e fica brava, vai tirar satisfação e muda o filho de escola. Não adianta uma campanha que não atinja a comunidade. É uma faca de dois gumes: mesmo que a escola queira andar, ela se vê obrigada a andar no ritmo da família. Esse é o problema.

E qual é o terceiro muro?

É o da família. Esse muro tem uma trinca ou outra, mas ainda há muito o que fazer. Eu conheço mães psicólogas, sexólogas com a maior dificuldade de aceitar os filhos.

Para essas mães que têm uma grande dificuldade em aceitar o filho, qual você diria ser o primeiro passo?

Primeiro, entrar em contato com o GPH (risos). Depois, ler o meu livro Mãe Sempre Sabe? (mais risos). Ali, eu trabalho o tempo todo com depoimentos de mães e de filhos, com uma linguagem muito simples e fácil, para qualquer mãe
entender. As pessoas têm muito medo do desconhecido, e ali elas vão perceber exatamente em que estágio estão. Esse livro dá uma esperança e uma segurança para a mãe. Eu nunca julgo ninguém: a mãe faz aquilo que ela pode. Foi construído um preconceito tão forte ao longo das nossas vidas, que ele passa a ser internalizado, e a gente não tem culpa.

Em que a imprensa pode ajudar nessa questão do preconceito sexual?

Em tudo. A mídia toda já está ajudando muito. Houve um movimento social e,quando a mídia divulga que está havendo uma mudança na sociedade, já está ajudando, porque reforça esse movimento. O que nós devemosà mídia não se pagará nunca.

E também houve um avanço em relação à legislação para os LGBTs?

Muito pouco. Ainda precisa avançar muito mais.

Revista: ATREVISTA - por Arminda Augusto, pagina 6, 7, 8 e 9.

   
Desenvolvido por: StudioAghata Mapa do Site | F.A.Q.
s