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10 /01/2006
  O difícil processo de aceitar a diferença
 


Edith Modesto

Hoje eu sei que, desde cedo, os homossexuais se percebem diferentes e aprendem que são considerados inadequados. As pessoas, injustamente, os vêem como anormais, doentes, sem caráter... E eles têm de esconder a sua homossexualidade dos vizinhos, amigos, parentes e, principalmente, de seus pais! Vivendo esse conflito, esses jovens se fecham em si mesmos, sentindo-se muito sós. Eles têm poucos amigos e, sobretudo, não têm quem os oriente.

Qualquer criança, qualquer jovem, quando sofre, procura a mãe: “Mamãe, fulano me chamou de tampinha... de gorducha... de quatro olhos...” Os nossos filhos homossexuais, quando ofendidos, ao contrário, tendem a se retrair, não denunciando nem procurando ajuda, pois sabem que a sociedade discrimina o diferente. E, geralmente, eles sofrem calados pois não podem se dar ao direito da proteção materna. Ficam sós, jogados à própria sorte, lutando em segredo contra o seu auto-preconceito e contra o preconceito social.
E, assim, provavelmente, aconteceu com o meu filho caçula.
E eu? Onde estava eu, a mãe que deveria dar-lhe carinho, apoio, deveria protegê-lo dos perigos, do sofrimento?
Como todas as mães, antes de ele nascer, preparei um enxoval azul, quando soube que ia ter um menino. Mais tarde, fiquei feliz ao perceber que ele era bonito, inteligente e estudioso, e esperava que ele arrumasse uma namorada, como seus irmãos, se casasse e nos desse netinhos.

Eu percebi, sim, que na adolescência esse filho tornou-se um garoto triste, calado, mas sempre arrumei uma desculpa para isso. Nem me passou pela cabeça que ele pudesse ser gay. Gay? Só na casa dos outros, bem longe da nossa! Ou nos programas cômicos da televisão. Na verdade, eu não tinha a mínima idéia do que é ser gay.
Um dia, estranhando o seu jeito fechado e o fato de não trazer namoradas para casa, eu lhe perguntei se não gostava de mulheres. E o meu mundo caiu, quando, chorando, ele me disse que era gay.
A descoberta da homossexualidade de um filho, de uma filha, quase sempre é uma tragédia para os pais. Para nós também foi como se aquele filho querido tivesse dado lugar a um outro, estranho, desconhecido...

Passei por um processo lento, doloroso, de aquisição de conhecimento e aceitação. Fiquei brava, inconformada, triste, desesperada, senti medo, vergonha... E me senti muito só. Eu não tinha com quem conversar. Qualquer semelhança com o que meu filho certamente sentiu não foi mera coincidência. Os pais, como seus filhos, também passam por um processo de aceitação, também têm de “sair do armário” e também precisam de apoio. Um apoio que seu filho/a homossexual dificilmente tem condição de lhes dar.
Na época, o meu maior desejo era conversar com outra mãe como eu. Trocar idéias, sentimentos, desabafar... Mas não consegui encontrar nenhuma! Poucos anos depois, fundei o GPH – Grupo de Pais de Homossexuais (maes-de-homo@uol.com.br) – para que os pais pudessem se encontrar.

Hoje somos mais de 100 mães e pais no grupo. Conversamos entre iguais, trocamos informações sobre o assunto, nos ajudamos mutuamente nos momentos de desalento e nos sentimos fortalecidos, principalmente porque sabemos que, com o nosso apoio, nossos filhos se sentirão mais seguros e felizes.

Edith Modesto
Revista Cláudia – n. 1 – ano 45
págs. 132/133 - janeiro de 2006



   
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